História

No dia 04 de Outubro de 1501, uma expedição de reconhecimento descia acompanhando a costa brasileira, comandada por André Gonçalves e Américo Vespúcio; vindo desde o cabo de São Roque, chegou à foz do São Francisco. Habitada a região pelos índios, que a chamavam de Opara, os portugueses deram o nome de São Francisco àquele rio, em homenagem ao santo que é comemorado naquele dia.

Outra expedição, em 1503, chegou à foz do São Francisco - a frota de Gonçalo Coelho, também acompanhado de Américo Vespúcio.

O São Francisco foi bastante visitado, próximo à foz, pois a mata, a caatinga pouco conhecida e tribos ferozes, eram impedimentos para que os brancos ousassem ir muito distante. A cobiça, entretanto, aliada a vontade de encontrar ouro e pedras preciosas, acabou fazendo com que dentro de algum tempo se aventurassem sertão a dentro. Corria, de boca em boca, no litoral, informações fantásticas de tribos que se ornamentavam com ouro puro e pedras verdes, além de cristalinos diamantes. Foi assim que, por ordem do rei D. João III, o Governador Geral Tomé de Souza determinou a exploração do rio, em 1553, a Bruza Espinosa, que formou a primeira companhia de penetração, o qual solicitou a presença de um sacerdote no empreendimento, tendo sido escolhido o Padre Aspilcueta Navarro. O roteiro dessa viagem e uma carta do Padre Navarro são os primeiros documentos descritivos do São Francisco.

Em 1561, o São Francisco é visitado pela expedição de Vasco Rodrigues de Souza e, em 1575, a penetração que foi denominada de "Mata-Negro". Marco de Azevedo viaja ao interior com um grupo, em 1577. Sabe-se, também, que em 1583 João Coelho de Souza também penetra o sertão e chega ao São Francisco.

Em 1587, o governador Luis de Brito determina a exploração do rio São Francisco e entrega essa responsabilidade a Sebastião Álvares, porém foi fracassada essa iniciativa. Gaspar Dias de Ataíde e Francisco Caldas têm sua expedição dizimada em 1588.

Em 1595 o descendente de Caramuru, Melchior Dias Moreira, de acordo com carta escrita ao Conde Sabugosa, ultrapassou o São Francisco.

A ocupação realmente ocorreu, entretanto, através das sesmarias, tendo sido o São Francisco ocupado parte pela Casa da Torre de Garcia D'Ávila e parte pela Casa da Ponte, de Antonio Guedes de Brito. O primeiro, Garcia D'Ávila, apossa-se das terras em 1573, sendo mais de 70 léguas entre o rio São Francisco e o Parnaíba no Piauí. Alguns ditam que, residindo na Praia do Forte, próximo a Salvador, e possuindo uma Carta de Sesmaria, pois era fidalgo, o Senhor Garcia D'Ávila avançou em direção ao São Francisco, construindo a determinadas distâncias um curral e uma choupana, e aí deixava 20 novilhas e um reprodutor e, para cuidar do rebanho, um casal de escravos. Dessa forma, tornou-se o primeiro latifundiário do São Francisco. Apossou-se das terras de forma irregular, já que o capítulo 26 do Regimento trazido por Roque da Costa Barreto, determinava que, nas sesmarias não se desse a pessoa alguma tanta quantidade de terra, que a não pudesse cultivar e tirando-as a quem assim não o cumprisse. Ora, a forma como Garcia D'Ávila ocupou o sertão foi portanto abusiva.

A Casa da Ponte, entretanto, recebeu como indenização pelos serviços prestados e gêneros fornecidos para as guerras, novecentos e sessenta quilômetros de rio, começando no Morro do Chapéu, no município de Jacaraci, na Bahia, estendendo-se até as nascentes do rio das Velhas, em Minas Gerais. Tornou-se notável o Senhor Manoel Nunes Viana, que se tornou a maior fortuna do São Francisco, através de uma procuração que lhe passou a viúva do senhor da Casa da Ponte, Antonio Guedes de Brito, para administrar as terras de herança e cobrar o fôro sobre aquela sesmaria. E um pobretão, o Manoel Nunes, se tornou um potentado em gado e terras, durante o ciclo do couro, no vale.

Outro fator importante de ocupação foi as missões, que se tem registro e iniciaram nesta região a partir de 1641. Foram os capuchinhos bretões que instalaram os primeiros aldeamentos. O frade Martim de Nantes deixou um relatório onde se pode perceber o comportamento atrabiliário da família de Garcia D'Ávila, em constantes desentendimentos com os frades franciscanos.

Sabe-se, através desses escritos, que os frades reclamavam da constante interrupção das missões, normalmente ocupando as ilhas, por serem áreas mais férteis; os vaqueiros da Casa da Torre, no período da seca, empurravam os rebanhos para comer a lavoura dos índios, obrigando-os a buscar a caça, dispersando-se na caatinga e interrompendo, assim, o trabalho catequético. Os atritos entre os missionários e os herdeiros de Garcia D'Ávila estão registrados em várias correspondências dos sacerdotes para os seus superiores.

Esses atritos culminaram com a reprovação à ação dos barbadinhos bretões, por parte das viúvas da Casa da Torre.

Por último, ocorreu a proibição oficial da comunicação da região com a do sul do Pais. É o que rezava a carta régia de 1701: "quaisquer comunicações daquela parte dos sertões baianos com as minas dos paulistas nos sertões mineiros", segundo Lacerda, culminando severas penas aos infratores que continuarem a inflingir a ordenação da carta régia, acentuando o comércio de gentes e de produtos ao longo do São Francisco, naquela limiar do próprio século XVIII (Vicente Licínio Cardoso).

Esse isolamento, se por um lado foi prejudicial, estagnando a região, por falta de contato com comunidades mais cultas, "Atravessa a região o século XIX em melancólico torpor, apenas sacudida pela curiosidade de alguns naturalistas botânicos e geógrafos que a visitaram, e pelo estrelejar das brigas de bandos adversos, facções medievais, como guelfos e gibelinos de gibão encourado, perpetuando rixas familiares, generalizando, com encontros intermitentes, as questões domésticas dos senhores do rio (Lacerda); por outro lado, serviu para gerar uma sociedade própria do São Francisco, com suas lendas, seus mitos, seus folguedos, seus medos, suas crenças e, até, seu próprio vocabulário.

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